domingo, 18 de dezembro de 2011

O Coração de Shai'Than - Capítulo Terceiro

Capítulo Terceiro – A Marcha do Ódio
Skaven

A caverna era quente e abafada, apesar de seu espaço amplo no salão central. O som oco de pequenos pedaços de ossos se batendo se fez presente próximo da única fonte de luz. Esta vinha do chão, em um tom esverdeado e fantasmagórico. Uma poça que rodopiava, com não mais que dois palmos de diâmetro, refletindo imagens que não pertenciam ao escuro salão. A forma humanóide diante do poço tinha um aspecto hediondo. Era extremamente alto, ultrapassando um tauren também na massa corporal. A “coisa” não era magra, mas obesa. A pele era azulada e os membros um tanto quanto desproporcionais. Sua cabeça, no entanto, estava coberta por um pano imundo, tal insuficiente para lhe ocultas as presas horrendas que surgiam da boca suja e fedida. Tratava-se de um troll, um repugnante bagateiro dado ao voodoo. 


Skaven foi membro dos Lançanegra por longos anos e participou da retomada das Ilhas do Eco, das mãos do terrível Zalazane. Escondido, tomou conhecimento de experimentos profanos e passou a estudar por conta própria. Mais tarde, tornou-se fugitivo ao ser descoberto em seu ofício pragmático, avultando-se para longe daqueles que, de alguma forma, poderiam lhe causar algum mal. A solidão que o tornava uma Besta sem rumo cessou no instante em que se encontrou com outros corrompidos.


As pestes derrotadas lhe rendiam objetos interessantes; sendo que por vezes os moldavam. Um desses eram as ombreiras de crânio, tais que não chamavam mais a atenção do que a feição oculta daquela "coisa". Seus olhos fumegavam avermelhados de sandices e vontades. Ele tinha diante de si um Poço das Visões, por onde era capaz de enxergar outros lugares e outras pessoas. A mando de seu senhor, o troll mantinha uma vigília constante sobre um grupo de exploradores vindos de Ventobravo. Skaven não sabia dos objetivos daquele grupo, mas a figura decrépita do velho Darius lhe enchia de prazer. O corpulento imaginava que gosto a carne de um velho poderia ter. Qual prazer ele sentiria ao puxá-la por entre os dentes e sentir a pele murcha esticando até rasgar. 

- Espero que tenha novidades, Skaven... – o som da voz alheia fora o suficiente para trazê-lo de volta; o suficiente para fazer com que o “monstro” se voltasse para o outrem. Carregando uma tocha, a figura iluminou o corpo daquele abaixado, observando a pele preenchida por tatuagens vermelhas.
Gorokar

Erguendo-se no topo de seus mais de dois metros de altura, apesar das costas curvadas, Skaven sorriu de forma maliciosa, como era de seu costume. Nada disse, apenas repousou a mão imensa de três dedos no ombro largo do visitante e o fez observar o poço. Este se aproximou com calma e observou com satisfação a cena que se desenrolava, onde um anão adentrava uma escura caverna na companhia de um humano. Ele, o visitante, não fazia parte de nenhum destes povos. Aquele era Gorokar, um orc.

Da mesma forma que Skaven, Gorokar devia satisfações a seu povo. Tendo participado da Terceira Guerra, foi um dos orcs que fez parte do exército de Grom Grito Infernal e, dessa forma, bebeu da fonte com o sangue do demônio, participando da morte de Cenárius. Um exímio lutador, membro do clã das Lâminas Ardentes, Gorokar era temido entre os de sua classe. Sua pele avermelhada ainda denunciava a condição corrompida de seu sangue e como um viciado nos poderes que tal relação proporcionava, desenvolveu-se como um grande caçador de demônios na intenção de alimentar suas forças com o alvo de sua busca. 

Gorokar sorria à maneira de exibir as presas sujas e desgastadas, passando a acarinhar a barba branca com a mão gorda e calejada. - É hora de agirmos. Os cães da Aliança encontrarão o local da pedra e certamente farão parte do nosso trabalho. Na melhor das hipóteses, tomaremos a jóia das mãos do velho. - Skaven sorriu novamente, imaginando-se a devorar o punho do ancião.

- ‘Cê sabe, orc... Eles não vão facilitar pra ninguém... Heh, heh... - A voz de Skaven irritava. Ela era sempre baixa, um pouco sibilada e não passava qualquer sinal de confiança. Além disso, quase sempre acompanhada de um riso fraco, debochado e intragável. 

Não estou lhe pedindo para pegar em armas, troll. Fez bem tua parte e assim que eu tiver a pedra em minhas mãos, receberá tua recompensa. - a resposta ríspida do orc fez o outro soltar um riso seco. As duas figuras sombrias se separavam ali, quando Gorokar partiu para o local onde os outros membros de seu grupo estavam, e o troll voltou sua atenção à fonte.

Enxergava-se uma luz alaranjada ao longe, tal que provinha do interior de um salão. Além da luz temulenta, via-se, sim, um corpo que parecia dançar com o remexer das labaredas. Estava, aparentemente, sentado. Com olhos curiosos e um pouco nervosos, a criatura observou o orc assim que ele se aproximou. Sua cabeça, um pouco desproporcional para o resto do corpo, era coroada por um imenso par de orelhas. O nariz caricato contorceu-se em dúvida pouco antes dele perguntar.

- E-ele viu?! Viu algo, ele?! - os olhos avermelhados corriam de um lado para o outro, como se Gorokar tivesse sido acompanhado de uma horda de espíritos. 

Mog, o Maníaco
Aquele era Mog, chamado “Maníaco” pelos outros membros do bando. Um goblin treinado como protetor de Kezan antes do cataclismo atingir o mundo de Azeroth. Tendo aceitado o dever de proteger seu povo, a mente de Mog se partiu quando ele viu a tragédia em seu lar e, enlouquecido, só consegue trazer paz ao seu espírito atormentado na matança. Era o mais imprevisível de todos.

- Sim, partiremos amanhã. Trate de dormir, precisarei de sua ajuda, mais que a de qualquer outro. - Roto continua na vigília? - Indagou o goblin, quando percebeu a ausência do Renegado.

- É vantagem de ter... De ter um cadáver conosco! Hahahahahhahahah! - a gargalhada do inócuo fez Gorokar fechar um dos olhos, irritado. O goblin perdia o controle de si mesmo facilmente. 

Do lado de fora, como uma estátua abandonada de um tempo já esquecido, estava Roto. Apoiado sobre seu cajado curvo, a figura decrépita pôde ouvir a gargalhada do goblin vinda lá de dentro da caverna. Diante de si a vastidão dos Ermos. Roto foi um Alto Elfo no passado e presenciou a destruição de Lua Prateada. Quando se libertou do vínculo que tinha com o Lich Rei, não aceitou juntar-se a Horda e fez seu próprio caminho, buscando por conhecimentos esquecidos. Depois de ter se voltado à bruxaria, tornou-se um aliado importantíssimo para o obcecado Gorokar. É um de seus mais antigos relacionados.

Roto
Roto não se envergonhava de sua condição, na verdade a explorava muito bem. Mesmo com sua aparência hedionda, que contava com a ausência de um maxilar, resultando no balançar obsceno de uma língua enegrecida, alegava se divertir com a sua existência apodrecida. O próprio nome já denotava seu total desapego. Ninguém jamais soube o verdadeiro nome daquele renegado e como era incapaz de falar, pela falta do queixo, este era um segredo muito bem guardado. 

Algumas almas altivas espalhadas por Azeroth tinham conhecimento daquele seleto grupo de seres bestiais e exilados. Para muitos eram conhecidos como a “Onda do Ódio”, ou a “Marcha do Ódio”, pois só destruíam os lugares pelos quais passavam. O líder do bando, Gorokar, tinha a fama de ser mortal com sua lâmina larga, tornando-se um verdadeiro turbilhão de aço no campo de batalha. Skaven, apesar de evitar o combate direto, era um bagateiro digno de medo, já que possuía o conhecimento das mais mortais mandingas de voodoo. Mog não tinha o epíteto de Maníaco à toa, era dado a ataques de fúria e apesar de seu tamanho diminuto, estava disposto a ir até as últimas consequências para conseguir o que desejava. Por fim, Roto era o braço direito de Gorokar, um bruxo habilidoso e capaz de conjurar as mais nefastas criaturas do Caos Exterior. 

Esta era a Marcha do Ódio, e na manhã de um dia quente deram seu primeiro passo na direção de Greyval, Ardmor e do velho Darius. Que os deuses tenham piedade de todas estas almas. 

2 comentários:

  1. Hahaha, muito bom! Eu estava ansiando há tempos pela continuação!

    E que belo grupo reunistes...

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  2. Valeu, Odin. Tenho que concluir esta pequena saga. Acho que no próximo capítulo contarei a lenda do Coração.

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